Quando e quanto repor: ponto de encomenda e stock de segurança explicados com números
Repor a olho sai caro: ou fica sem stock ou imobiliza tesouraria. Mostramos como calcular quando encomendar e quanto, com exemplos passo a passo, e o erro com as ruturas de stock que falseia quase todas as previsões.
Cada produto esgotado é uma venda perdida e, muitas vezes, um cliente que vai para a concorrência. Cada produto a mais é dinheiro parado numa prateleira. Entre as duas coisas há uma forma simples de decidir quando e quanto repor, e não é preciso ser especialista em logística: bastam quatro dados e uma folha de cálculo.
Os quatro dados de que precisa
- Procura média diária (D): unidades que vende por dia, em média.
- Prazo de entrega (L): dias desde que faz a encomenda até poder vender o produto. Inclui o tempo de preparação do fornecedor, o transporte e a receção.
- Stock de segurança (SS): uma almofada para quando vende mais do que o normal ou o fornecedor demora mais.
- Stock disponível: o que tem mais o que já está encomendado e ainda não chegou.
O ponto de encomenda
É o nível de stock em que tem de lançar a encomenda. A fórmula é:
A ideia: com o que lhe resta tem de aguentar todo o prazo de entrega, mais uma margem para o caso de as coisas correrem pior do que o previsto.
Duas formas de calcular o stock de segurança
Método simples (o do pior caso)
SS = (venda diária máxima × prazo máximo) − (venda diária média × prazo médio).
Exemplo: um produto vende 6 unidades por dia em média e 9 nos melhores dias. O fornecedor demora 10 dias em média e, alguma vez, 14.
- SS = 9 × 14 − 6 × 10 = 126 − 60 = 66 unidades.
- Ponto de encomenda = 6 × 10 + 66 = 126 unidades.
É fácil de perceber e quase nunca o deixa sem stock, mas costuma ser excessivo: supõe que o pior dia de vendas coincide com o pior prazo de entrega.
Método estatístico (mais ajustado)
SS = Z × σ × √L, em que σ é o desvio-padrão da venda diária e Z depende do nível de serviço que quer: 1,28 para 90 %, 1,65 para 95 %, 2,33 para 99 %.
Com o mesmo produto, se a venda diária varia com um desvio de 2 unidades e quer 95 % de serviço:
- SS = 1,65 × 2 × √10 = 1,65 × 2 × 3,16 ≈ 11 unidades.
- Ponto de encomenda = 60 + 11 = 71 unidades.
A diferença face ao método simples são 55 unidades paradas. Multiplicado por todo o catálogo, é muito dinheiro. Numa folha de cálculo, σ obtém-se com a função DESVPAD sobre as vendas diárias.
Quanto encomendar
Uma forma prática é fixar uma cobertura objetivo: quantos dias quer que dure cada encomenda (por exemplo, 30).
Continuando com o exemplo (método estatístico), se lhe restam 70 unidades e não tem nada encomendado: 6 × 30 + 11 − 70 = 121 unidades. Depois, ajuste à encomenda mínima do fornecedor ou à caixa completa.
O erro que falseia quase todas as previsões
A procura diária parece fácil de calcular: vendas do mês a dividir por 30. Mas se o produto esteve esgotado parte do mês, esse cálculo fica curto, e leva-o a encomendar menos do que precisa, pelo que volta a esgotar. É um círculo vicioso.
| Cálculo ingénuo | Cálculo correto | |
|---|---|---|
| Vendas do mês | 90 | 90 |
| Dias contados | 30 | 18 (dias com stock) |
| Procura diária | 3,0 | 5,0 |
O mesmo acontece com os produtos novos: se um artigo está ativo há dez dias, dividir as suas vendas por 30 subestima a procura em dois terços. A procura tem de ser calculada sobre os dias em que o produto estava ativo e com stock.
Nem todos os produtos merecem a mesma atenção
Classifique o catálogo com uma análise ABC:
- A: os 20 % de produtos que costumam fazer cerca de 80 % da faturação. Reveja-os todas as semanas e com um nível de serviço alto (95-99 %).
- B: os seguintes. Revisão quinzenal, serviço de 90-95 %.
- C: a cauda longa. Revisão mensal, pouco stock ou até venda por encomenda com o stock do fornecedor e um prazo de entrega maior indicado na ficha.
Casos que a fórmula não resolve sozinha
- Sazonalidade: use a procura do mesmo período do ano anterior, não a do mês passado.
- Promoções: se vai fazer uma campanha, some-a à mão à previsão.
- Produtos com validade: o stock máximo é marcado pela vida útil, não só pela procura. De nada serve comprar barato se uma parte vai passar de validade.
- Encomendas mínimas e portes: às vezes compensa antecipar uma encomenda para chegar aos portes pagos; calcule se a poupança supera o custo de ter mais stock.
Para começar amanhã
- Exporte as vendas diárias dos últimos 90 dias dos seus 50 produtos mais vendidos.
- Desconte os dias sem stock ao calcular a média.
- Registe o prazo real de cada fornecedor (data de encomenda e data de receção dos últimos envios).
- Calcule o ponto de encomenda e a quantidade com as fórmulas acima.
- Reveja todas as semanas que produtos passaram o seu ponto de encomenda.
Quando o catálogo cresce, a folha de cálculo fica pequena: o razoável é que a própria loja calcule a necessidade de cada produto com as suas vendas e os seus dias com stock, e que a encomenda ao fornecedor saia daí.